Polícias queixam-se de injustiça nas promoções
Um estudo do maior sindicato da Polícia conclui que há “injustiças” na PSP face à GNR e Forças Armadas, onde foram promovidos centenas de militares em 2011.
Os polícias vão voltar a queixar-se ao Ministério da Administração Interna da "injustiça e tratamento desigual" pelo facto de centenas de elementos da GNR e dos três ramos das Forças Armadas terem sido promovidos durante o ano passado, apesar do congelamento das promoções decretado pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar. O facto de não existir uma correspondência em termos de promoções na polícia, no mesmo período, foi transmitido esta segunda-feira ao novo director nacional da PSP, Paulo Valente Gomes, pela Associação Sindical dos Profissionais da Polícia.
A Direcção Nacional da PSP, questionada pelo Diário Económico sobre a alegada "injustiça", recusou fazer "qualquer comentário acerca das decisões do Governo relativamente a matérias da sua exclusiva competência." Mas o assunto será reportado também ao ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, em reunião solicitada ao MAI pela ASPP. "É uma injustiça, de facto, e pode envolver responsabilidade criminal e financeira, implicando a eventual devolução de verbas por parte das entidades que mandaram promover e pagar esses valores", disse ao DE um superintendente da PSP, signatário da carta entregue em Janeiro ao anterior director nacional, Guedes da Silva, que solicitou o anonimato.
Paulo Rodrigues. “Os polícias não são robôs para fazerem de braço armado do governo”
Não são possíveis mais cortes orçamentais na PSP.
Muitos polícias de intervenção apoiam os manifestantes
Paulo Rodrigues é presidente da direcção nacional da ASP, o maior sindicato da polícia, com mais de 11 mil sócios. Aos 38 anos, este agente principal da PSP, natural do distrito de Bragança, divide a sua vida entre o sindicato e o trabalho no Corpo de Intervenção. Na entrevista ao i não esconde que a crise o preocupa, mas acha que os polícias não podem ser uma espécie de braço armado da troika.
Como é q ue o Paulo Rodrigues chegou à polícia?
Após o 12.o ano tirei o curso de Administração Autárquica e fui colocado na Câmara de Torres Vedras. Cedo percebi que aquilo não era o meu trabalho. Não me revia naquela actividade excessivamente administrativa. Um primo meu concorreu a uma força de segurança o que me motivou a tentar ir para a polícia. Estranhamente não tinha a certeza que queria ser polícia. Se me tivessem perguntado dois anos antes se pensava ser polícia eu teria respondido “tudo menos isso”. Acabei por entrar. Disse a mim mesmo que se não gostasse me ia embora. Na escola prática aprendi a gostar disto e hoje não trocava a minha profissão por nenhuma outra.
E aderiu logo ao sindicato?
Quando saí da escola prática fui parar a uma esquadra e como estava habituado a ver os sindicatos na Câmara de Torres Vedras, em que as relações entre trabalhadores e chefias eram normais, cheguei à PSP e senti que tinha regredido uma série de anos. Uma pessoa para falar até com o guarda principal era uma coisa dos diabos. A hierarquia estava muito marcada e sobrepunha-se a quase tudo. As pessoas não podiam pensar, se o fizessem era quase tomado como uma afronta aos superiores. Lembro-me que na primeira reunião a que assisti na esquadra, minutos antes, o pessoal estava todo a criticar uma situação que existia, e eu pensei para mim: “A reunião vai ser conflituosa.” Nunca tinha assistido a nenhuma e era o mais novo dos presentes. Entretanto começa a reunião e o comandante falou meia hora e no final disse: “Meus senhores, alguém tem alguma coisa a dizer?” Eu olhava para todos lados, a pensar: “Agora é que vai ser.” Ninguém dizia nada e eu aventurei-me e disse: “Eu!” O homem olhou para mim e nem me respondeu. E eu sem perceber. O pessoal todo a dizer-me: “Estás lixado, não vais aguentar muito tempo.” Passadas duas horas o comandante manda-me chamar ao gabinete e diz-me: “Você ousa pedir para falar? Você a mim não me questiona!” E eu a medo, “mas foi o senhor que perguntou...” O homem olhou para mim e respondeu-me: “Mas isso é só um pró-forma.” E explicou-me: “Quando você quiser falar comigo pede-me, diz-me qual é a questão e eu decido se o mando chamar ou não. Mas nunca à frente das outras pessoas.” Passados oito dias, o homem chama-me e diz-me: “No outro dia fui um pouco ríspido consigo. Por um lado fiquei chateado, mas por outro fiquei satisfeito: os seus colegas são uma cambada, falam por trás e quando chega à altura de falar ninguém fala. Pelo menos você levantou o dedo.”
E como tomou conhecimento do sindicato?
Um delegado de uma associação foi ter comigo e disse-me: “Tu davas um bom delegado.” Curiosamente, era do SPP, na altura APP. Estávamos em 1999, a lei que permite os sindicatos na polícia data de 2002. Nesse dia houve um colega que me disse “cuidado que há várias associações”, e eu então disse, “espera aí, deixa--me pensar”. Quando me explicaram o que cada uma representava percebi que a ser associado tinha de ser da ASP, por todas as razões, juntamente por ter sido o grande impulsionador do sindicalismo na PSP. A partir do momento que fui delegado comecei a associar toda a gente na esquadra. As pessoas estavam habituadas a ver um delegado com muita idade e o facto de eu ser novo facilitou: os colegas reviam-se porque o pessoal que trabalhava na Amadora era todo muito jovem. E eu vivia lá nas camaratas, de modo que tinha muita facilidade de falar com as pessoas. Muitos não se tinham associado porque não sabiam, alguns julgavam que as associações ainda eram perseguidas. Tinham receio. Passado um tempo sou convidado pelo Alberto Torres para a direcção. E a partir daí dediquei-me a isso e cá estou.
Você é de Bragança. Quando aterra na Amadora o choque é muito grande?
Eu tive uma classificação que me permitia escolher o sítio para onde ir, só que grande parte do pessoal que eu conhecia de Bragança estava na Amadora. E a questão era económica. Se eu fosse para um sítio onde estava o pessoal de Bragança podíamos dividir transportes e ir mais vezes a casa.